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“Comandante da Marinha Mercante Brasileira resgata 26 náufragos do navio “SUNDANCE” de bandeira Cipriótica no Oceano Índico, em meio a tempestade com ventos força nove na “Escala Beaufort” e vagas de oito a nove metros de amplitude”. Veja o filme e leia o relato do Comandante Luiz Augusto C. Ventura.

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Comte. Luiz Augusto C. Ventura – CLC
luizaugustocardosoventura@yahoo.com.br
Tarde do dia 22 de junho de 1996, oceano Índico.
Fustigado por violento temporal o Ore-oil “Jurupema”, da Frota Nacional de Petroleiros, carregado com quase um milhão de barris de petróleo, navegava com muita dificuldade com destino a São Sebastião, litoral norte de São Paulo, amargando uma velocidade de apenas 8 nós.
A Ilha de Socotra, na entrada do Golfo de Aden, já ficara para trás e quatro dias já se passavam desde a saída de Fujairah, nos Emirados Árabes.
Apanhados pela monção de verão, que varre aquela região periodicamente entre junho e agosto, os navios navegando naquela área foram surpreendidos sem nenhum aviso meteorológico. Ventos de SW força nove, na Escala de Beaufort (em torno de 100 km/h), produziam vagas de oito a nove metros de amplitude.
Navios cargueiros de menor porte enfrentam enorme dificuldade para se deslocar. Alguns chegam até a ter velocidade negativa.
O “Jurupema”, minero petroleiro de 132 mil toneladas e com 16 metros de calado, tem seu convés principal varrido constantemente pelos vagalhões.
O mastro de vante é constantemente encoberto pelas vagas que rebentam na proa. Avarias causadas pela força do mar já são observadas sem que nada possa ser feito para evitá-las.
É nesse cenário desalentador que verifico na estação rádio um telex proveniente de Pireus, na Grécia, remetido pelo Centro de Coordenação de Resgate (RCC): “um navio cargueiro – informava ele – de bandeira Cipriota e de nome Sundance, carregado com 16 mil toneladas de potassa e procedente de Aqaba, na Jordânia, com destino à Indonésia, pede socorro nas imediações. Sua situação é bastante crítica. O porão número um faz água e o navio já se encontra com um trim pela proa de quase quatro metros. Vinte e nove pessoas a bordo correm perigo de vida e estão prontas para abandonar a embarcação”.
O pedido soa dramático, pois, abandonar um navio com um mar revolto daquela maneira, com ondas de oito a nove metros, parecia suicídio.
Eram dezesseis horas locais e verifiquei que por volta de meia noite poderíamos alcançar o navio em apuros, já que navegávamos em rumos opostos.
Haveria tempo?
Avisei ao RCC da nossa condição de carregamento e, cumprindo minha obrigação, me ofereci para socorrer o navio em perigo, desde que não aparecesse outro em melhores condições.
Proposta de ajuda aceita, fomos de imediato designados como coordenadores do salvamento. O passo seguinte foi desviar a rota para encontrar o “Sundance”.
Após navegar oito horas sem qualquer melhoria nas condições atmosféricas, chegamos às proximidades do navio em apuros, com o auxílio do radar, por volta das 0030h do dia 23 de junho.
Todo o equipamento de salvatagem, nesse ínterim, fora preparado para uso imediato: retinidas, bóias-circulares, balsa inflável, redes, cabos, foguetes lança retinidas, etc.

Ao alcance visual e já em contato pelo VHF, fui informado diretamente pelo Comandante do Sundance, de sua situação desesperadora, ou seja, o trim pela proa já ultrapassava os quatro metros e da sua intenção em alcançar abrigo na Ilha de Socotra, distante cerca de 150 milhas ao norte.
Com a velocidade desenvolvida pelo Sundance, calculei, seriam necessárias (1500) 15 horas de navegação para atingir a Ilha e estávamos entrando na primeira hora do dia 23.
Eu tinha sérias dúvidas de que esse intento pudesse ser alcançado.
De comum acordo com o Comandante do Sundance, e a pedido deste, passei a acompanhá-los a uma distância prudente de três milhas.
Para isso, precisei inverter nosso rumo em 180 graus passando a navegar para o norte. O acompanhamento era necessário devido ao perigo que o navio corria e não haver perspectiva da aproximação de outro para lhe prestar socorro.
Era hora de descansar um pouco. Deixei o passadiço do Jurupema a cargo do oficial de quarto e desci para o meu camarote.
Não houve tempo para descansar. Minha avaliação pessimista em alcançar a Ilha de Socotra estava correta. Só não imaginava que tudo fosse acontecer tão rápido.
Antes das 0300h o Sundance chama pelo rádio. Seu Comandante comunica nervosamente que não tem mais condição de prosseguir e que está ordenando o abandono do navio. Pede que nos aproximemos o mais rápido possível.

Partimos a toda força para ajudá-lo.
A noite é escura e o tempo tende a piorar. Oficiais de náutica e máquinas concentram-se no passadiço do Jurupema, onde impera a expectativa. A vigilância é total. Um pouco a BE, apesar da escuridão, percebe-se que o Sundance, ainda iluminado, inicia seu mergulho de proa. Minutos depois nossa vigilância detecta uma balsa inflável. Vazia.
Simultaneamente, apitos de boca são ouvidos por BB. E dois vultos passam boiando levados pela força do mar. O pisca-pisca dos coletes salva-vidas denuncia dois náufragos.
O que terá acontecido no abandono do Sundance? Por que há gente n’água? Por que uma balsa vazia? Chamamos insistentemente o Sundance pelo VHF. Nenhuma resposta. Temi por uma tragédia.
Quando já nos preparávamos para tentar resgatar os dois náufragos, o que seria uma tarefa dificílima, o clarão de foguetes de sinalização na nossa proa, riscaram a noite escura.
Desisti, temporariamente, dos dois náufragos e parti naquela direção dos foguetes, pois a lógica indicava que ali se encontravam mais pessoas.
Não demorou a divisarmos uma baleeira com vários tripulantes e darmos início à primeira tentativa de abordagem.
Vi logo o quanto isso seria difícil.
O tempo permanecia inclemente e nossa tripulação se arriscava ao tentar passar um cabo para a frágil embarcação que dava a impressão de emborcar a qualquer momento.
Bem perto, as luzes do Sundance iam se apagando na medida em que ele dava seu último e inapelável mergulho para as profundezas do Oceano Índico.

Uma tristeza dominou a todos. As vidas, no entanto, eram mais importantes. Precisávamos salvá-las.
Três manobras foram perdidas. As vagas e os fortes ventos não permitiam o governo do navio com máquina reduzida. Parar, também, não era possível, pois atravessaríamos a corrente. Tentamos alcançar a baleeira com foguetes lança- retinidas. Em vão. O vento desviava o projétil.
A baleeira via-se, era motorizada, mas, ao que parecia, seu motor estava inoperante, pois ela não ajudava em nada na aproximação.
A tentativa de utilizar os remos era inútil. Eu temia qualquer toque na aproximação da baleeira que poderia ser fatal.
Na quarta tentativa fomos mais felizes. Uma retinida lançada manualmente atingiu o alvo.
Com a baleeira amarrada no costado e com o Jurupema navegando lentamente e fazendo sombra, foi possível resgatar um a um dos 15 náufragos, que subiram ao convés pela escada de quebra-peito.
Último a abandonar a baleeira, o Comandante do Sundance, ucraniano, com dois dedos da mão direita esmagados durante o abandono, bastante emocionado, informa a real situação: uma balsa inflável com doze pessoas a bordo se encontra à deriva e outros dois tripulantes, que teriam se precipitado ao abandonar o navio, haviam caído n’água e se encontravam perdidos.
Dos dois que estavam n’água, eu já sabia.
O desafio agora havia aumentado. Era preciso recolher mais doze pessoas em perigo, além dos dois à deriva na água.
Rapidamente localizada na tela do nosso radar, pois dispunha de transponder e rapidamente alcançada, a balsa se apresentava mais difícil de ser abordada do que a baleeira.
Por ser mais leve, ela se deslocava mais rapidamente ao sabor do vento e da corrente. Ajudados, porém, pela luz do dia, com três tentativas de aproximação, conseguimos trazer a balsa para o costado.
Novo drama para a subida dos náufragos. Nossa tripulação lutava freneticamente contra o cansaço, contra as vagas que varriam o convés e, completamente encharcados, vibravam com a chegada de cada sobrevivente a bordo.
Tempo precioso é gasto para a subida da esposa do Chefe de Máquinas, ambos ucranianos e do Cozinheiro, filipino, do Sundance, que se encontravam na balsa. A senhora com medo e muito traumatizada e o Cozinheiro sem reação psicomotora.
O Imediato, ucraniano, último a abandonar a balsa, ajuda a passageira que finalmente consegue subir com segurança. O Cozinheiro teve de ser literalmente arrastado para bordo através de cabo preso a um cinto de segurança.
Pronto. Vinte e sete pessoas estavam seguras. Eram 1000h da manhã e sete já se haviam passado desde o abandono.
Restavam, no entanto, os dois tripulantes na água. Era preciso procurá-los.
Nenhum navio conseguiu chegar próximo para ajudar. Alguns se ofereceram, mas estavam muito distantes.
As condições de tempo continuavam muito adversas. Uma fragata francesa nas imediações havia informado ao Comandante do Sundance, antes do abandono, que, com aquele tempo, não poderia ajudar e muito menos usar seu helicóptero.
Assim, continuamos sozinhos e prosseguimos a procura dos dois náufragos restantes.
Era como procurar agulha em palheiro.
Varremos a área durante algumas horas. Desisti do rastreamento após constatar que seria impossível encontrar alguém naquele mar encapelado após tantas horas do abandono.
Explicamos a situação ao RCC, que nos deu permissão para retomar o nosso destino.
Reiniciamos nossa viagem com 26 extras a bordo, com apenas a roupa do corpo, acomodados da melhor maneira possível.
Desembarquei-os em Durban, África do Sul, distante dez dias de viagem da área de salvamento. Foram todos recebidos pelo armador grego do Sundance.
Vinte e sete vidas foram salvas. Duas lamentavelmente perdidas. E nossa euforia só não foi completa devido a essa amarga lembrança. O saldo, no entanto nos era bastante favorável. Graças ao denodo da nossa tripulação concluímos com êxito uma operação arriscada com técnica quase perfeita.
Estávamos todos de parabéns. Irmãos do mar foram salvos da força implacável da natureza.
A mais valorosa tradição marinheira fora preservada: a solidariedade.